O que The Last of Us Part II ensina sobre luto, ruminação e o ciclo da vingança

Ilustração de uma pessoa com mochila caminhando por uma cidade coberta de vegetação, com uma silhueta ao longe

The Last of Us Part II divide opinião entre os jogadores, mas há um consenso sobre o que o jogo faz bem: retratar com desconforto real o que a busca por vingança faz com quem carrega esse peso. Depois da morte de Joel, Ellie atravessa o jogo inteiro perseguindo as pessoas responsáveis, convencida de que encontrá-las (e fazê-las pagar) vai trazer algum tipo de paz. O jogo passa horas mostrando esse processo, e a sensação, ao final, não é de alívio.

Vingança é ruminação em forma de ação

Do ponto de vista psicológico, a jornada de Ellie é uma boa ilustração de um mecanismo bem documentado no luto: a ruminação. Repassar mentalmente a perda, reconstruir cada detalhe de como ela aconteceu, alimentar a raiva contra quem foi responsável, tudo isso dá a sensação de que se está “fazendo alguma coisa” com a dor, mas na prática mantém a ferida aberta em vez de processá-la.

A vingança que Ellie persegue é ruminação com um objetivo concreto: se ela alcançar quem matou Joel, a dor vai parar. Mas a dor nunca foi sobre isso, e é por isso que, mesmo quando ela finalmente tem a chance de completar sua missão, nada muda como ela esperava.

O que dizem as pesquisas

Eisma e Stroebe (2017), em uma revisão publicada na revista Death Studies, reuniram evidências sobre o papel da ruminação no luto e mostraram que repassar obsessivamente os eventos da perda (em vez de processá-los) está associado a sintomas mais intensos e a um luto mais prolongado e complicado. A ruminação, segundo os autores, funciona como uma forma de evitação disfarçada de enfrentamento: parece que a pessoa está lidando com a perda, mas na prática ela está presa em um ciclo que não gera resolução nova.

O que realmente ajuda

Diferente do que a jornada de Ellie sugere por boa parte do jogo, processar uma perda não passa por “resolver” o que aconteceu ou encontrar um culpado: passa por permitir que a dor exista, entender o papel que a pessoa perdida cumpria, e gradualmente reconstruir uma vida que não depende de reverter o que já aconteceu. É um processo mais lento e menos cinematográfico do que perseguir uma vingança, mas é o que de fato reduz o sofrimento a longo prazo.

Esse é um dos temas que trabalho com frequência na página Relacionamentos, incluindo os casos de luto por perdas que não são um término, mas pesam da mesma forma.

Se você está lidando com uma perda e sente que a dor não passa, agende uma conversa inicial pelo WhatsApp.

Este conteúdo tem caráter informativo, faz referência a uma obra de ficção apenas como analogia, e não substitui uma avaliação profissional individual.

Fonte científica: Eisma, M.C., & Stroebe, M.S. (2017). Rumination following bereavement: an overview. Death Studies.

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Erik Matos
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