Por que até o Homem-Aranha se sente um impostor: o fenômeno do impostor sob a máscara

Ilustração de uma pessoa em um palco sob um holofote, segurando uma máscara dourada afastada do rosto

Tem um detalhe que se repete em praticamente todo herói de quadrinhos que usa máscara: por baixo dela, quase sempre existe alguém convencido de que está fazendo tudo errado. Peter Parker (Homem-Aranha) é talvez o exemplo mais claro: mesmo salvando a cidade repetidamente, ele segue se vendo como um adolescente desajustado tentando não estragar tudo, sempre a um erro de distância de perder a confiança de quem ele mais admira.

É uma escolha narrativa recorrente porque ela ressoa: a sensação de “e se descobrirem que eu não sou tão capaz quanto parecem achar” não é exclusividade de heróis fictícios com poderes. Tem nome: fenômeno do impostor, mais popularmente (e menos precisamente) chamado de “síndrome do impostor”, é extremamente comum, e afeta especialmente pessoas com histórico consistente de bons resultados.

A máscara como metáfora perfeita

A máscara do herói é uma metáfora quase didática para o fenômeno do impostor: por fora, competência, controle, resultados. Por dentro, a sensação de estar improvisando, de que o próximo erro vai expor que aquilo tudo era sorte ou fachada. Quanto mais alto o “cargo”, quanto mais a pessoa (ou o herói) é vista como referência, maior a distância entre a imagem e como ela se sente por dentro.

Diferente de um vilão que quer ser reconhecido, o herói ansioso costuma evitar o holofote, não porque seja modesto, mas porque cada elogio aumenta a pressão e a sensação de estar prestes a ser “desmascarado”, no sentido psicológico do termo, muito antes de qualquer identidade secreta estar em jogo.

O que dizem as pesquisas

O termo “fenômeno do impostor” foi cunhado em 1978 por Pauline Clance e Suzanne Imes, em um artigo pioneiro publicado na Psychotherapy: Theory, Research and Practice, a partir da observação clínica de mulheres de alto desempenho que, apesar de currículos impecáveis, viviam com a sensação persistente de estarem enganando todo mundo. As próprias autoras já preferiam “fenômeno” a “síndrome”: o padrão não é um transtorno, é uma forma de processar o próprio sucesso. Décadas depois, uma revisão sistemática de Bravata e colaboradores (2020), publicada no Journal of General Internal Medicine (já citada no nosso artigo sobre o fenômeno do impostor) confirmou que o padrão é comum, atravessa profissões e está fortemente associado a sintomas de ansiedade.

Tirando a máscara em terapia

Assim como nenhum herói de quadrinhos resolve a insegurança apenas colecionando mais vitórias, ninguém sai do fenômeno do impostor apenas acumulando mais conquistas, porque o problema nunca foi a falta de evidência de competência, e sim como essa evidência é processada e descartada internamente. O trabalho terapêutico foca exatamente nesse ponto: identificar como os sucessos são sistematicamente reinterpretados como sorte ou exceção, e construir uma relação mais realista com o próprio desempenho.

Você pode conhecer melhor como trabalho esse tema na página Ansiedade e Performance.

Se você se reconhece nesse padrão, agende uma conversa inicial pelo WhatsApp.

Este conteúdo tem caráter informativo, faz referência a personagens fictícios apenas como analogia, e não substitui uma avaliação profissional individual.

Fonte científica: Clance, P.R., & Imes, S.A. (1978). The Imposter Phenomenon in High Achieving Women: Dynamics and Therapeutic Intervention. Psychotherapy: Theory, Research and Practice.

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Erik Matos
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