O nome mais conhecido para o que vamos descrever aqui é “síndrome do impostor”, mas esse não é o termo mais preciso, e vale explicar por quê. Quando Pauline Clance e Suzanne Imes descreveram esse padrão pela primeira vez, em 1978, elas o chamaram de impostor phenomenon: fenômeno do impostor. Não é uma síndrome, porque não é um conjunto de sintomas que caracteriza um transtorno: é um padrão de pensamento e autoavaliação, muito comum e não patológico em si. Ao longo deste texto usamos o termo mais correto, fenômeno do impostor, ainda que “síndrome” seja como a maioria das pessoas o reconhece.
Ele descreve um padrão que aparece com frequência em pessoas de alto desempenho: a sensação persistente de que os próprios resultados não refletem competência real, e sim sorte, esforço bruto ou a capacidade de enganar os outros por mais tempo. O mecanismo por trás dele costuma ser mal compreendido, e do ponto de vista clínico, é melhor entendido como uma expressão da ansiedade: ansiedade ligada à autoavaliação, ao medo de exposição e à ideia de que a aprovação de hoje pode ser desfeita a qualquer momento. É justamente por isso que a psicoterapia baseada em evidências consegue atuar sobre ele.
Por que o reconhecimento externo não resolve
Uma característica central do fenômeno do impostor é que ele não responde a evidências contrárias. Um elogio é atribuído à sorte. Uma promoção, ao fato de ninguém ter notado ainda. Um projeto bem-sucedido, ao esforço excessivo que “qualquer um teria feito”, como se o esforço não contasse como mérito. Cada resultado positivo é reinterpretado de um jeito que preserva a crença de fundo: “eu não sou tão capaz quanto parece”.
Isso cria um padrão de busca constante por mais validação, que nunca é suficiente, e de esforço redobrado para “compensar” uma inadequação que, na maior parte dos casos, não corresponde à realidade observável de fora.
O papel da autocobrança
O fenômeno do impostor costuma andar junto com padrões de perfeccionismo e autocobrança elevada. Quanto mais alto o padrão interno de “o que seria suficiente”, mais distante ele fica de qualquer resultado real, por melhor que seja. Isso mantém a pessoa em um estado de alerta constante, mesmo em momentos de reconhecimento objetivo, o mesmo tipo de alerta constante que caracteriza quadros de ansiedade.
O que dizem as pesquisas
Uma revisão sistemática conduzida por Bravata e colaboradores (2020), publicada no Journal of General Internal Medicine, reuniu dezenas de estudos sobre o tema e encontrou uma associação consistente entre o fenômeno do impostor e sintomas de ansiedade e depressão. Os autores concluem que abordagens estruturadas, incluindo a Terapia Cognitivo-Comportamental, estão entre as intervenções com mais suporte para lidar com o padrão, o que reforça que não se trata de um traço de personalidade fixo, e sim de algo que responde a tratamento.
Como a terapia trabalha esse padrão
Na Terapia Cognitivo-Comportamental, o trabalho não é convencer a pessoa, por argumento, de que ela é competente. Isso raramente funciona sozinho. O processo envolve identificar como as evidências de competência estão sendo sistematicamente descartadas ou reinterpretadas, e construir, de forma gradual, uma relação mais realista entre desempenho e autoavaliação.
Esse tema está diretamente ligado ao que trabalho na página Ansiedade e Performance, onde também abordo perfeccionismo e medo de fracassar.
Se você se reconhece nesse padrão, agende uma conversa inicial pelo WhatsApp.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui uma avaliação profissional individual.
Fonte científica: Bravata, D.M. et al. (2020). Prevalence, Predictors, and Treatment of Impostor Syndrome: a Systematic Review. Journal of General Internal Medicine.
Atenção: Este site não oferece atendimento imediato a pessoas em crise de risco à própria vida.
Em caso de crise, ligue para o CVV: 188.
Havendo risco de vida, ligue imediatamente para o SAMU (192) ou Corpo de Bombeiros (193).
Pingback: Homem-Aranha e o Fenômeno do Impostor | Erik Matos